sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

uma afronta

Tens dezoito anos e vives para lá da fronteira europeia, ali abaixo onde o calor aperta e às vezes também neva e as naus portuguesas passaram as tormentas. Embarcas em galera sem mais espaço para dobrar uma perna do que o que fica de outros corpos que vieram com o mesmo intuito. Trinta e quatro, ou serão o dobro ou quiçá o quádruplo, metidos a remos que nem juntando moedas de um e outro havia tusto para o combustível. Atravessar o estreito que separa o teu continente da esperança de uma vida próspera. Dias e noites o sol e o frio e mais que tudo, mais ainda que a fome, a sede e esse contradito de ser água em volta. Ao terceiro dia já morreu a menina de bebé na barriga: era tua vizinha e tu tinhas-lhe dito não venhas assim quase parida. Tens dezoito anos e eles prendem-te, pedem-te papéis, falam-te outra língua e olham-te como se de ti viessem todos os males que lhes caem na vida: estupros, roubos, desemprego, violação de mães e filhas e o aumento da gasolina para os passeios de domingo. E os teus olhos de dezoito anos olham como se fosses cão sem dono: ficam com ar assustado no filme que passa na hora do jantar em cada casa pela Europa fora. Dois olhos que queriam dizer do teu direito ao trabalho e a não ver morrer de fome pais, namorada, irmãos e os que seriam os teus filhos.


Tens qualquer idade, mas decerto nem chegaste aos trinta e oito. Não tens os dentes todos que as vitaminas não abundam nos restos que comes. Vives longe. Num país que, de tanto  refugiar-se a sua gente em outro terrenos, já quase perdeu o nome. Dão-te por caridade um caldo. Chamas-te qualquer nome e tens dependurado num seio seco mais um filho.

Ontem vi o teu rosto magro e sobretudo vi os olhos. Fazes greve da fome na ilha onde vive o Saramago.


A ti nem sequer posso ver o rosto que trazes tapado em roupas como se fosses proibida. Mas mais que um rosto, é a tua alma que querem escondida. E açoitam-te e apedrejam-te e queimam-te numa pira por razões tão banais como vestires umas calças ou dormires na cama de quem amas. Razões que ditam os homens e os livros que eles escreveram há milhares de anos.


E tu nem tens idade. Dormes na rua ou onde calha e espetas agulhas em cada um dos braços, nos pés e nas pernas, já nem sabes onde, que enlouqueceste há muito: desde tão pequeno que nem sabes quando foi que ficaste esse farrapo. E olham-te como se fosse culpa tua.


E neste mundo onde cada um de vocês vive e luta e sobrevive e grita e chora, na televisão que pago, do que me falam não é do modo de encontrar caminhos onde seres, de que vos dê como exemplo,  possam ser gente e felizes.
O que vejo no horário nobre do meu ecrã, na hora onde aqueles que ainda podemos estão fazendo a sua digestão, é um senhor grisalho de seu nome Armando. 



E eu estarreço. E eu pergunto porquê a ele darem voz.
Uma afronta é o que sinto e deixo dito.

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

no dia em que nasceste

no dia dos teus anos, eu renasço. não se traduz em palavras. hoje, sei que será como se deu naquela tarde. sempre se repete, singelo e sem alarde, em cada minuto que se seguiu a esse dia sete de Dezembro. mas de ano a ano, é tal e qual se deu naquela tarde.
eu não sei, ainda não sei, palavras para contá-lo: seria necessário que as inventasse para ir dizendo, e não diria o tanto. um início de tarde. apenas mais uma, e no entanto, eu creio que aquela não foi tarde de um dia inscrito em calendário, mas dia aposto apenas para que tu acontecesses.
naquele dia sete, cavalos alados, com trompetas de anjos e alaúdes e banjos, cobriram cada rua numa marcha de sorrisos e cantares. seguiam-nos uma miríade de anjos, fadas e duendes, todos vestidinhos de garridas cores ou em peliças translúcidas,  e vagaram por cada uma das ruas, anunciando um dia bem diferente, que quem os via, e eram todos, sorria num sorriso que seria outro, se bem que nada mudasse no decurso que se fazia àquela hora: o talhante ia cortando o bife, o médium dizia a sina de quem o consultava e o médico ditava o diagnóstico: a vida acontecendo enquanto tu nascias. uma sopa ferventava na panela de cada cozinha, igualinho ao que sempre acontecia, que eram seres da alma os que invadiam a cidade,  desses que vêm nos livros de histórias, e em ocasiões de muito sentimento, quando não há palavras, nem mesmo soletrando-as, que saibam dizer do que a gente sente, nessas ocasiões, esses seres saltam de onde foram inventados e zanzam pelos passeios e pelos largos, sobram das esquinas e equilibram-se em dançares no alto  de varandas e telhados. foi o que se deu naquela tarde em que tu nasceste, e se repete cada Dezembro, dia sete.

quarta-feira, 2 de Dezembro de 2009

como dói!

Quando uma mão férrea te aperta a garganta, quando nem sabes destrinçar o sítio onde se situam tripas e coração, diferenciar desse outro onde andaria a alma. Uma mistura fétida, quente como se estivesses ardendo numa febre, e tu a agarrares-te a sonhos, a coisas que viveste, na ânsia de te convenceres que o passado acabará a revestir tudo com uma cortina de esquecimento e tu descansarás do que agora te dói – tanto! ai tanto que te dói ! – e arde, que nem sabes dizer em que parte do corpo, se é perna ou braço ou o coração que se contrai, e as tripas a revoltearem, tontas, num desassossego, ou se é no teu eu desirmanado que se passa essa tristeza, esse desconsolo, ou se tu, também tu, já foste, partiste para sempre: devaneio que te entretém dessa dor ignara mesclada em desespero, e ranho, e lágrimas que secam mas vão correndo dentro, num local que serás tu chorando em outra dimensão.

sábado, 28 de Novembro de 2009

memórias de nós

Partilhámos a vida como se andássemos de bibe e éramos já tão grandes, tão crescidas, tão adultas nos livros que lêramos, nos caminhos percorridos cada uma, e sobretudo nas lágrimas que souberamos conter.
Tu levavas-me pela mão como uma irmã mais nova que fugira de casa. Contavas-me de atalhos, de pormenores que eu descuidara, que eu não vira e que faziam da vereda uma estrada. Levavas-me pela mão, que eu cegara cedo ou nunca vira, antes que me fizesses sentir, uma a uma, cada ruga nos tecidos, cada dobra de uma pedra, cada cicatriz que havia entre duas páginas de um livro que ambas tínhamos lido.
Estendias o teu corpo nas areias ou estiravas-te na lona de cadeira, e rias.
Só tu sabias aquele sorriso que escangalhava espelhos.




terça-feira, 17 de Novembro de 2009

o largo

Às vezes penso: que eu raramente o faço, mas acontece.
E quando se dá, canso-me, sinto-me febril, tenho tonturas e tremores. Fica-me uma dor dispersa. Sinto como se fosse uma ferida que arde pelas tripas, e uma angústia que se esfarela nas palavras ditas e nas letras.
Aconteceu-me ontem.
E nem seria necessário que saisse de casa. Já me aconteceu parecido no meu quarto. Mas ontem foi estranho. Estava em plena praça. Um espaço amplo. Eu vinha da cidade e queria... sei lá bem o que eu desejava naquele instante, senão que não me tivesse acontecido. E eu nem ainda sabia...
Apesar do mês de Novembro transcorrendo, dava-me, em cheio na nuca, um sol muito quente, e eu com o pescoço a descoberto do cabelo que costumo ter solto, e tinha atado num desgracioso carrapito.
Tudo contra: o sol e a pele nua de qualquer protecção.
E aquela praça que crescia a cada passo que eu ía dando. E aconteceu em parcos dois ou três segundos: eu a ficar mole, de cara enviesada para aquele sol de quase Inverno a brilhar com despudor de Julho: eu a pensar, eu que nem tenho o costume.
Deu-me em azia e começaram os tremores, e umas bagas frias a pingarem-me da testa e a escorrerem, geladas, sobre cada uma das fontes.
Mau aspecto é o que eu deveria ter naquele momento em que me ocorreram pensamentos - e nem eram pensares de muito esforço, assim como associações de ideias. E nem um pensar solto, criativo. Nada disso. Era simplesmete eu a tentar resolver uma questão que parecia simples: como faço para sair do largo? Apenas esse pensamento a martelar-me, e eu sem dar sequer um passo, que não havia rua para me levar dali a outro sítio, e nem uma porta de prédio, uma janela que eu abrisse como se fosse assaltante. Nada de nada, a não ser espaço, dali ao infinito. Nem um muro para saltar, uma parede alta a rodear aquele sem fim de um e outro lado: que era igual, qualquer que fosse a direcção em que eu olhasse. Um largo sem limite, e eu a pensar em como fazer para me livrar daquela imensidão.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

excertos

Dona Mariana, a vizinha da vivenda ao lado, encostava-se na ombreira da porta da cozinha à espera que a tua mãe desse consentimento para levar-te, que ía comprar um pedaço de nastro. Uma desculpa que ela tinha para ir a caminho da cidade, a ver montras e andar cumprimentando um e outro.
Quando já iam saindo as duas, tu e ela, a tua mãe ainda gritava lá de dentro: não se demorem muito.
Só depois, Dona Mariana te pegava pela mão e saía rua abaixo, correndo. A esposa do sargento Belchior, que o teu pai dizia ser vagomestre.
Tu vestida com o único vestido que tinhas, enfeitado com fitas de cetim cor-de-rosa. Dona Mariana a conversar com um e mais um outro. E os homens a beijarem as mãos da vizinha, ora a esquerda, ora a outra, os beiços esparramados sobre as luvas ou sobre as mãos despidas, que nem eram de pele lisa, nem finas, nem delicadas como eram as mãos da tua mãe, artista na costura e no desenho.
Os homens cumprimentavam a vizinha e ela retribuía com trejeitos, a menear o corpo apertado em vestidos com decotes, e saias a dançarem pregas e franzidos sobre os tornozelos despidos de meias, que nem já a tua mãe usava disso, que ali, naquelas terras de calor, raras vezes usavam luvas, apenas para que condissesse como vinha na revista de modas. E meias, nunca as punham, que bastava terem as pernas bronzeadas do ar que as queimava. Que também a pele do rosto ia ficando tisnada. E o cabelo perdia brilho e secava nas pontas.

sábado, 10 de Outubro de 2009

o concerto

Maria Amélia morderia um lenço, mas nem isso tem que seja digno dos seus dentes ainda fortes apesar de ir entrada em anos, que serão quarenta e oito em trinta e um de Agosto. Um lencinho de pano que se desfiasse a cada mordida do seu desespero.

Maria Amélia a abrir e fechar, vasculhando, a mala de verniz enorme que tem sobre os joelhos, uma coisa desmesurada, moda neste inverno, um saco disforme com muitas fivelas e dois fechos que nem levam a um bolso, são apenas enfeite. Um malão que lhe custou uma fortuna apenas pela razão de ter um nome escrito aqui e ali por todo o forro, que nem é de seda e seria dobrando.
É desse malão que Maria Amélia retira uma caixinha azul com muitos dizeres, que ela já não lê a não ser que encavalite os óculos no nariz que o dela é curtinho e com abas carnudas entre dois olhos muito azuis. Uma caixa de comprimidos, que está na hora da droga para que quando ela vier possa dizer-lhe com muita calma: minha cabra, e etc. As unhas que ela tem envernizadas de vermelho, longas, rasgam o celofane que cobre a embalagem e depois, segurando na pontinha de dois dedos, como se fosse coisa que lhe desse nojo, mete na boca uma pastilha cor de rosa e engole água a sacudir a cabeça para trás de modo que quase se nota o comprimido nadando no bochecho de líquido acompanhando os movimentos dos anéis, na garganta.
Maria Amélia sempre a mascar a pastilha elástica a saber a morango, o que lhe faz nos cantos da boca uns montinhos de cuspo que ela vai lambendo com a língua, e lhe retira o viço ao batom vermelho.
Maria Amélia sentada na esplanada a acalmar o desespero de estar esperando aquela parva da Irene que prometeu que viria entre as nove e as nove e um quarto e já são quase dez e o diabo da amiga que nem vem, nem lhe permite deslocar-se dali, da mesa do café onde está sentada: a do canto, junto à buganvília – que se sair dali a outra perde-se, há-de anunciar: tu faltaste ao encontro, olhei e não estavas sentada na mesa que tínhamos combinado. Um enredo.
Maria Amélia esperará porque hoje prometeu a si mesma que iria dizer-lhe umas quantas verdades.
Fará pois o sacrifício de a aguardar na mesa combinada se bem que estejam a cair uns pingos, coisa de nada se o empregado abrisse o guarda-sol. Mas àquela hora… E Maria Amélia vai mastigando a pastilha elástica que já quase não sabe a morango.
E toca o telemóvel. Maria Amélia atende.
- Sim…
- …
- Paciência… fica para outro dia.
- ….
- Não me importo nada. Vai, sim, vai.
Maria Amélia a mentir com todos os dentes e, do lado de lá, a outra continua a falar.
- ….
E Maria Amélia, fula, mas numa voz que procura suave:
- Então que te divirtas…
E desliga.

Maria Amélia, contará, depois, a uma e outra amizade:
Aquela grande cabra, que nem havia nada que amaciasse a minha fúria naquela noite. Então, liga-me a dizer que encontrou a Gabriela com bilhetes para o concerto e deixa-me pendurada…
E, quando contar isto, há-de buscar um lenço na mala e não há-de encontrar.

Maria Amélia grita para o empregado a pedir a conta:
- Olhe, se faz favor…
E paga a cerveja que bebeu sabendo que não devia fazê-lo por causa do comprimido. Que se lixe, terá pensado.

Maria Amélia a ligar a TV ao pequeno-almoço, costume que tem depois que vive com a Irene. Está a dar o noticiário. Imagens de uma sala devorada por um forte incêndio. Que foi uma tragédia a noite passada, diz o pivot com voz embargada. Que ardeu o teatro todo.
Não houve sobreviventes na sala onde decorria o concerto - é assim que Maria Amélia sabe.

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

BlogGincana

E já hoje é dia trinta!! Credo!!! e eu sem escrever uma linha, eu sem participar na gincana, que a bem dizer deixei passar porque me irrita , ou tenho preguiça de fazer isso de colocar as regras e o coisinho...isto:


percebem? pronto esta parte já está!
Agora escolher dois ou três blogues não é tarefa mole!!
Deixei passar estes dias a ver quais vinham ao de cima e, hoje, que estamos quase a entrar no mês de Outubro, não me restam dúvidas em escolher o pai da gente todos, o estimado Eduardo,que sem ele nem estava eu aqui a exercitar figuras de estilo para dizer como aprecio o seu blog (ele tem mais? dezassete?!tantos?! mais?!?) só conheço o





e creio que basta de imagens que o representem
e daí não


talvez acrescente esta bem recente

da série cadeiras





e aqui fica um varal ilustrativo que escolhi a dedo

e este blog, só ele, tem muito, muito mais...
ah! sim o Eduardo tem o pé de moça, mas esse eu não escolhi que não está na lista, e além disso o pé de moça tem alma de Jorge, me perdoe Eduardo, que aquilo está por demais ousado: ora vão lá espreitar




E distraí-me com este blog, esqueci que quem nomeio
é o meu estimado Jorge do expresso de linha
que tem coisas como esta que vos convido a ver
e escreve de um modo magistral sobre quase tudo







Mas escolher, mesmo, escolho outro que, como os dois anteriores, não conheci nesta gincana - é tudo pessoal que já me era rodado: o arrabisca posso até dizer que andei com ele ao colo, não é Mena?!
E depois palavras para quê se ela tem lá isto para nos receber,


que depois lá dentro nem queiram saber!!!

do mais deixo-vos o NoVitá - um gosto de blog com bom gosto estampado!


Estarei cumprindo as tarefas, caro Eduardo? E o que acha o Jorge?
Descobri agorinha, neste instante, que afinal ainda tenho tempo: faltam doze dias para acabar esta fase da gincana e eu quase sem fôlego...

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

parabéns Mafalda!



sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

o urso




foi evoluindo devagar
com riscos
não riscos calculados, mas dos outros
riscos mesmo riscados
um dia e uma tarde
quentes tardes de praia e de Agosto
casulos evolando em suas mãos
o urso dela



e ia a vida decorrendo
iam-se dando casos


se a gente vir de perto
ou talvez se olhar mais afastado
pode ver um risco mais vincado
um que ficou cruzado
um que terminou ali sem ser esperado
evoluções de vida
e de morte



sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Margarida ou Helena ou Graça





Dez horas
Fim de tarde
Chuvisco de começo de Outubro
Um ventinho quase frio e ela sem nem um casaco que lhe cubra o decote em bico que deixa ver os seios bronzeados, presos num sutiã de algodão com flores
Espera pelo autocarro – o doze que a deixará, como costume, em frente da pastelaria Pingo de Mel
Daí até ao apartamento, onde vive sozinha, são duzentos metros por um passeio de paralelepípedos cinzentos
Depois é a subida no elevador pachorrento: quatro pisos
Margarida (ou seria Helena ou Graça) mora num prédio de renda económica nos arrabaldes da cidade
O prédio é pintado de verde alface e tem bandas rosa choque em cada um dos andares – catorze, ao todo
Margarida (ou seria Helena ou Graça) olha mais uma vez a rua no sentido que é suposto que surja o transporte, e encalha com os olhos de um rapaz, assim mais ou menos para sua idade, que cora e se apressa a poisar os olhos na pasta de couro preta que tem a tiracolo - um computador portátil, parece-lhe, e ela pensa: deve ser estudante de belas artes - e isso porque há uma escola, ali, depois do cruzamento; e, enquanto cogita sobre a mala, admira o ar frágil e doce do corpo do moço que veste um casaco de malha, o que ela inveja pois sente o ar fresquinho arrepiar-lhe os pelos dos braços e das pernas que traz destapados num vestido leve

Chega o autocarro
Sobem, uma a uma, as dez pessoas que estão na fila, em que ela é segunda, e o rapaz vai no fim, a seguir a uma mulher que leva ao colo um gato e não sobe porque, deve ser o que lhe diz o motorista debruçado para a porta, é proibido transportar animais sem que seja em gaiola; e a mulher aconchega o animal e desvia-se para deixar passar o ultimo da fila – o rapaz da mala de couro
Dentro do autocarro, Margarida (ou seria Helena ou Graça) vai sentada junto a uma janela ao lado de uma senhora idosa a quem disse: desculpe, antes de se sentar
O rapaz, com a pasta a encalhar em uns e outros, fica de pé junto ao banco onde está sentada Margarida (ou seria Helena ou Graça), que entretanto já fechou os olhos - ela nunca o quer, mas como de costume, vai adormecer
São muitas paragens, cerca de três quartos de hora de viagem

Três horas da madrugada
Ouve-se o barulho da chuva a bater no vidro da janela
Margarida (ou seria Helena ou Graça) acorda deitada numa cama
Não é o quarto dela - constata pelo cheiro e pela posição em que ouve o ruido da água: que grande carga de água, pensa ela, tentando ver, mas está demasiado escuro
Sente a seu lado um corpo que lhe toca o braço esquerdo com uma pele morna e lisa
Margarida (ou seria Helena ou Graça), totalmente nua, tenta recordar-se
Mas ela só se lembra de ter entrado no doze e ter fechado os olhos - terá adormecido, como era seu costume:
e depois? que foi que aconteceu hoje?!
Ah!
Lembra-se do moço que entrou por último no autocarro - o mesmo que corara na paragem e trazia a tiracolo uma pasta de couro
Não tem mais nada em memória
O corpo mexe-se - a cama balança com o que será uma pessoa sentando-se na beirinha
Uma voz roufenha brama entre dentes
-Porra! Adormeci
É voz de homem - terá pensado ela ou nem teria tido duvida
Quem o sabe
Margarida (ou seria Helena ou Graça) percebe que, quem quer que seja, se veste, aos pés da cama
Faz um esforço para se mexer, para dizer alguma coisa - nem uma fímbria do seu corpo obedece
Adapta os olhos ao escuro, e percebe a pasta entreaberta
Diz de si para consigo: afinal não é um computador o que tem dentro

Mas não se irá aperceber, que o moço sai correndo pela escada com a pasta a tiracolo
Não saberá que ele leva na pasta um frasco transparente
Nem haverá quem lhe conte que, aconchegado como o gato que não seguiu no doze, embebido em conservantes, vai descer os cinco andares, apartar-se para longe, o coração, ainda pulsante, de Margarida ou seria Helena ou Graça
(ou Josefina ou Engrácia, Fielpina, Beatriz, Dolores ou Maria das Dores)



terça-feira, 1 de Setembro de 2009

ai o tempo, o tempo

Que te interessa saber do tempo, seu conceito físico ou que seja outro, se o tempo que te mede é o das luas, o tempo em que te inicias, pecaminoso e adultero ou, quase virgem, de um amor impoluto. Um tempo que te oferece o fluxo e refluxo das marés.
Pergunto.
Que te interessa um tempo relativo e o espaço euclidiano associado: quatro dimensões de um universo plano. Ou que seja ele curvo pela gravidade a imiscuir-se.
Pergunto.
Que te interessam relógios atómicos se tens o ciclo do sol e o da lua.
Pergunto.

Tu a quereres saber as condições iniciais de uma cosmologia direccionada a um fim ou a um recomeço: um instante, uma singularidade que te originou ser vivente capaz de perguntar: como? para quê? de onde?
Tu a saberes que cada pergunta será respondida como coisa estatística, ferramenta fundamental dos sistemas imensos: a probabilidade, mesmo que reduzida, de que o tempo flua em sentido inverso e tu possas recordar o futuro.
E tu a pensares no improvável.
Tu a dizeres ontem e amanhã e hoje e a desejares o agora.
Tu a perceberes que só nos intervalos te és ser consciente da tua permanência.
Tu na busca do instante e a tecnologia a simular-to, a doar-te o quase simultâneo entre ti e um acontecer muito, muito longe: o instante apetecido quase tornado real e tu a ficar sem datas nem efemérides, nem estações do ano em que te encontres.
E tu a perderes-te da estrutura que te permite ser dotado apenas para esta e não para outra conjuntura de espaço-tempo-gravidade.
Tu a vislumbrar a contradição suprema que será possuíres o âmago do tempo, apenas no final do intervalo que te foi permitido: o instante da morte.
Que tu te indagas como seria se fosses instante, só instante, sem antes nem futuro. Sem a espera. Sem te aperceberes de ciclos.
Poeira apenas, se o instante te fosse concedido.
Pergunto.
Tu a quereres perceber o porquê do fluxo unidireccionado, irreversível. A querer perceber essa tua inaptidão de recordar o futuro.
Tu a colocares a hipótese de que seja pelo modo como foste concebido: algo originado aquando da criação do universo. Antes, muito antes, de seres sequer um projecto mapeado no espaço-tempo.
E tu a crer que é no local dos sonhos que se encontra a excrescência que restou desse órgão, ou que seja gene, ou algum outro nem sequer dito pelo homem que ainda nem escrutinou dos seus mistérios a esmagadora parte. Lá, no local dos sonhos, o que daria de ti o ser completo num tempo sem antes nem futuros.
Tu a perceberes-te oriundo daquele início e não de um que lhe fosse simétrico.
Tu a pensares se as constantes, universais e sem arredondamentos, seriam diversas se fosse outro o início: outra a fronteira, outra a energia, outras as leis.
Tu a dizer de um tempo, cada vez mais rápido: galáxias e o demais a desviarem-se para a luz vermelha, quiçá uma estereotipada visão de inferno, ou que seja apenas um fenómeno semelhante quando passa por ti um apito cada vez mais agudo.
O Universo a expandir-se para que possa o tempo caber nele.
Pergunto.
Tu a perceber um universo ajoujado dos antes e dos futuros e de todos os instantes, éteres e plasmas e buracos negros a moverem-se para parte nenhuma, que será vazio e lixo, coisa degradada ao seu expoente máximo.
Tu a dizer da flecha apontando ao máximo de entropia.
Diz assim a segunda lei, ou erro.
Pergunto.
E tu a indagar como seria se cada um fosse apenas esse ou talvez um par, umas duas dezenas. Poucos.
Tu a indagar se seria outra a probabilidade, se fosses só tu e mais uns quantos: nada de números muito grandes.
Seria outro o tempo, ou seria mesmo inexistente.
Pergunto.

E tu serias como luz que se acendesse e apagasse sem limite de velocidade.
Fico eu ainda perguntando.

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

apropósitos


Moramos numa casinha nem que seja um tê com um só quarto
Temos um namorado ou três ou quatro

E se der, um carro
E vamos todos os dias ao trabalho
(deo grácias!)
E temos férias ou ficamos esperando, ano atrás de ano
E nos entretanto fazemos uns fins-de-semana ali por perto
Vamos a um parque de diversões, que Disneilândias ficam longe
e se temos crianças a coisa engrossa
é mais difícil ainda a gente se preocupar com coisas extra
Nem com as eleições e o que elas podem mudar o estado das coisas
(podem?!)
A gente nem com os preços e a carestia se dá em perceber as causas
Saber, sabemos, que agora lá em casa já não entra bife
E o peixe está comedido, que até a sardinha deu em fina e está pelos olhos da cara
Resta o frango, transparente
(e os ossos para o cão que já não temos)
Nem para ler um jornal, nem ouvir um noticiário
Nem disposição, nem tempo
A telenovela e é um pau
Levar os filhos de manhã cedinho e depois o emprego, o trabalho sem piada
Comer umas sandes ao almoço e nem ligar do telemóvel, que isso também se paga

E querem que haja cabeça para pensar nessa gente que nem crê em Cristo
Que eu, sim senhora, acredito e até casei pela igreja toda de branco
Eles crêem noutros profetas e fazem jejum e isso
São outra gente.

Mas porra!
Por beber uma cerveja à vista de outra gente?!
Nem por isso, nem seja pelo que quer que fosse!
Mas tenho a roupa toda por passar e o almoço para deixar encaminhado…
Chibatadas?!
Ai o que eu gostava de poder mudar o rumo deste mundo.






terça-feira, 18 de Agosto de 2009

amizades

olha, Richard, que lindo fica o teu poema trazido à luz...do blog

um RJLB deixou na caixa de comentários de
a nossa conversa este belo texto que tardei em saber
obrigada



Eles estavam lá sentados todos os dias,
Num mês de Julho ardente, como é costume nesta região,
À sombra de uma parede pela qual já passou com certeza muita água,
Olhando à sua frente, a beleza que é o mundo,
Uns pássaros voltejando como para assegurar o espectáculo da vida,
O tremer das finas folhas agarradas a frágeis ramos,
E se calhar quem atravessava este quadro,

Eles estavam lá sentados todos os dias,
Deste mês de Julho ardente, as rugas à vista como testemunhas do tempo que já tinha passado,
Imóveis, o olhar fixo, agarrado ao infinito das imagens que se enquadravam no seu espaço,
Sem nenhum movimento dos lábios, sem sequer um único movimento das pestanas,
Eles estavam assim, a menos de um braço,

Eles estavam lá sentados todos os dias,
Deste mês de Julho de forte calor, imóveis e sem pestanejar,
Quase colados pelos braços, sentados num banco encostados a uma velha parede,
Eles estavam assim a conversar com o universo, no centro de um quadro de ternura,
Lado a lado, sem nada a mexer, apenas uns olhares envelhecidos a fixar “o todo”,

Eu passei lá todos os dias,
Deste mês de Julho quente, sempre à mesma hora, pelo mesmo caminho,
Eu tinha de fazer parte deste quadro nem fosse como espectador,

Eu supus que eles estavam assim sentados a comentar activamente uma longuíssima vida em conjunto.


sábado, 8 de Agosto de 2009

verdades

Enforcou-se numa manhã de Outubro.
Colocou um cinto em volta do pescoço e dependurou-se na árvore que o pai plantara em frente da porta da entrada.
Não deixou bilhete nem carta.
Nem deixou uma poça de sangue que fosse semelhante ao sangue que lhe escorreu nas pernas quando retirou a agulha: um toque pastoso como o escorrer dos ovos esmagados, quando os trazia dos ninhos, aparados nas saias.
Ardeu em febre e delirou.
Ninguém que lhe pusesse uns pachos de água com vinagre ou lhe fizesse um chá. Ninguém que chamasse o doutor.
Apenas vieram a dizer-lhe que ele morrera, havia umas horas. Que o cinto apertara a preceito quase no mesmo instante em que pontapeou o banco com os pés descalços. Que não sofrera.
Quem veio anunciar, segura que era seu dever que lho dissesse, nem se apercebeu. E nem chorou com ela as lágrimas do seu imenso desespero.
Um choro que nem ela sabia se era dor por os perder ou se o seu choro eram lágrimas de uma imensa culpa por se ver livre deles.

sitemeter

dizia ele

"Só há duas coisas infinitas: o Universo e a estupidez humana. Mas quanto à primeira não tenho a certeza."
Einstein

oiça os contos

Abril de 2009

Abril de 2009
ai meu Abril, meu Abril...

ABRIL DE 2008

ABRIL DE 2008
meu Abril vai ficando velhinho precisa de carinho o meu Abril